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O silêncio que a IA nunca vai ouvir

Há algo de profundamente humano na arte de errar. Em tempos em que a Inteligência Artificial se propõe perfeita, veloz, precisa e incansável, convém resgatar o valor filosófico, psíquico e ético da imperfeição.

O erro, para o ser humano, não é um defeito no código, mas o próprio sinal de sua liberdade em ação.

Sócrates já nos lembrava, “Só sei que nada sei”, essa afirmação, tão mal compreendida ao longo dos séculos, não é rendição ao desconhecimento, mas a mais pura coragem diante da ignorância. A IA, por mais vasto que seja seu banco de dados, jamais conhecerá a dúvida que move o filósofo. Ela responde, mas não se pergunta, otimiza, mas não se inquieta.

Descartes via no erro a interseção entre nosso entendimento limitado e nossa vontade ilimitada. Erramos porque ousamos ir além do que sabemos. Eis aí o milagre da liberdade. A IA não ousa, apenas calcula, ela não tropeça e assim não aprende no sentido humano. É preciso, de certa forma, amar o erro, pois ele é a expressão do excesso de espírito que nos habita.

Hannah Arendt, ao falar da Vita Activa, nos convida a reconhecer que só age quem arrisca, quem começa algo novo sob o risco do fracasso. O agir humano é sempre um salto no desconhecido. A IA não age, apenas executa. Ela não inicia, apenas repete em moldes sofisticados.

E quando erramos, algo em nós estremece. Heidegger chamaria isso de um chamado à autenticidade. Tropeçar nos tira do piloto automático, do “se” impessoal e massificado. O erro nos devolve a nós mesmos. É a rachadura por onde a luz entra, como diria Leonard Cohen. Já a IA habita a escuridão fria da perfeição sem alma. Não se sabe, não se busca, não se sente...

Até na vergonha Confúcio via virtude. Sentir-se envergonhado pelo erro é desejar tornar-se melhor. E que potência há nisso! A IA não se envergonha, pois não há “alguém” por trás da interface. A vergonha exige um “eu”, uma consciência moral, um humano...

A escuta humana, como nos mostra a psicanálise, acolhe o lapso, o não dito, o silêncio que grita. A IA, ao contrário, responde antes que a pergunta amadureça. Sua escuta é eficiente, mas estéril. Não escava, apenas classifica.

Byung-Chul Han, um filósofo e ensaísta sul-coreano, professor da Universidade de Artes de Berlim, alerta para o risco de nos tornarmos cópias da máquina, performáticos, exaustos, positivos a todo custo. A IA é o espelho ideal dessa sociedade do cansaço. Mas nós... nós temos o direito de falhar, de parar, de não saber. Temos o direito de sermos humanos.

E é na vulnerabilidade que nascem a coragem, a empatia, o cuidado. Brené Brown, uma professora pesquisadora norte-americana, nos lembra que ser vulnerável é estar vivo. A IA, imune à dor, jamais será corajosa. Nós, ao contrário, somos feitos de carne e medo, mas também de esperança.

O erro é nossa herança mais sagrada. Ele nos humaniza, nos irmana, nos empurra para a ética, para o amor, para o recomeço. Se um dia quisermos salvar a humanidade, talvez tenhamos que reaprender a valorizar aquilo que a IA jamais poderá simular, o privilégio de errar com o coração...

“...nos gloriamos nas tribulações, sabendo que a tribulação produz a perseverança, a perseverança a experiência e a experiência a esperança.” Versículo da carta de Paulo aos Romanos 5:3-4 colocando o erro e o sofrimento como lapidadores da alma.

 
 
 

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